Todo dia de manhã, o Geraldo empurra a cadeira até a esquina, com uma caixa de isopor no colo, pra vender chocolate.
Não é passeio. É de onde sai o cuidado da filha, o cuidado da neta e a comida dos três.
A filha nasceu com uma má formação na cabeça que dá crises. Não pode passar um dia sem os cuidados; quando atrasa, a crise vem. Ela nunca conseguiu trabalhar.
A neta é a Ana Clara, tem 22 anos. Faz um ano e meio descobriram uma condição rara, a mesma que já levou a avó.
Hoje ela passa três tardes por semana ligada numa máquina, quatro horas em cada sessão, e volta sem força pra sair da cama.
Num dia bom, o Geraldo vende cento e vinte reais de chocolate. Cem voltam pra caixa do dia seguinte. Sobram uns vinte e poucos para os cuidados da filha, para cuidar da pressão da neta, pra consulta, pra comida dos três. Tem mês que ele precisa escolher o que vai faltar.
Toda manhã a filha pede pra ele ficar em casa. Ele diz que só vai hoje, amanhã ele para. Amanhã nunca chega.
Ele já enterrou a esposa pra essa mesma doença que agora tá na neta. Não vai ver de novo de braço cruzado.
Aos 77, o Geraldo ainda empurra a cadeira porque em casa não tem quem faça por ele.
Tudo pode começar a mudar por aqui: